MFS09 - Sobre a eternidade
Pouca gente, no Brasil do séc. XX, falou da eternidade com a competência técnica de Mário Ferreira dos Santos. Não a eternidade vaga dos discursos religiosos genéricos, mas a eternidade dos metafísicos clássicos — Parmênides, Platão, Plotino, Boécio, Tomás de Aquino. Para esses pensadores, a eternidade não é “tempo infinito”; é o oposto do tempo. Eternidade é a posse simultânea, total e perfeita de uma vida sem sucessão. Boécio, na Consolação da Filosofia, formulou-a assim: interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio.
MFS desdobra essa definição clássica e mostra suas consequências. Se Deus é eterno, isso não significa que Deus “durou desde sempre e durará para sempre” — significa algo radicalmente diferente: Deus está fora da própria sucessão. Para Deus, passado, presente e futuro são um único “agora”. As consequências dessa tese para a teologia (presciência divina, predestinação, liberdade humana) são imensas, e MFS as acompanha com rigor lógico.
Para o ouvinte moderno, treinado em pensar o tempo como linha contínua, este é dos textos mais difíceis e mais libertadores que pode encontrar. Difícil porque nos pede para pensar fora da nossa moldura habitual; libertador porque, ao fazê-lo, descobrimos que muitas das nossas angústias temporais (o medo do fim, o peso do passado, a incerteza do futuro) descansam num pressuposto — o tempo absoluto — que talvez não corresponda à última estrutura do real.