MFS01 - Filosofia Antiga e Simbólica - Fragmento
Mário Ferreira dos Santos (1907–1968), filho de Tietê (SP), engenheiro autodidata, jornalista, professor sem cátedra, é o autor da maior obra filosófica jamais composta em língua portuguesa: a Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Sociais, em mais de quarenta volumes, publicada entre 1950 e a sua morte. Este fragmento — primeira das palestras gravadas que chegaram até nós — é uma porta de entrada à sua paixão pela simbólica: a ciência, hoje quase esquecida, que estuda os símbolos não como ornamentos culturais, mas como caminhos cognitivos pelos quais a humanidade arcaica acessava a estrutura do real.
Para MFS, a filosofia antiga não era um “pensamento primitivo” a ser superado pela ciência moderna. Era, pelo contrário, um modo de conhecer que operava pela analogia, pelo símbolo, pela correspondência entre planos da realidade — e que, embora insuficiente sozinho, captava aspectos do mundo que o conceito abstrato moderno deixou escapar. Ler Pitágoras, Heráclito, os pré-socráticos, sem o instrumental da simbólica, é ler superficialmente. Esta palestra abre essa janela perdida.
Sendo um fragmento, não esgota o tema — é um aperitivo. Mas serve de prólogo às palestras seguintes, em que MFS desenvolverá com mais detalhe a sua tese de que a filosofia, ao perder o contato com a simbólica antiga, perdeu também o contato com a totalidade do real. O cérebro do ouvinte brasileiro contemporâneo, formado em escola positivista e mídia rasa, é mais provocado em vinte minutos com Mário Ferreira do que em meses de leitura de manuais.