Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M83

Sobre o Sermão da Montanha

Santo Agostinho
<em>Sermão da Montanha</em> — representação tradicional do episódio evangélico.
Sermão da Montanha — representação tradicional do episódio evangélico.

Por volta do ano 393, recém-ordenado presbítero na cidade norte-africana de Hipona, Agostinho compôs um dos primeiros grandes comentários cristãos sobre os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus — o célebre Sermão da Montanha, em que Jesus proclama as bem-aventuranças, a nova lei, a oração do Pai-Nosso e a crítica à hipocrisia religiosa. O livro, dividido em dois volumes, chama-se De sermone Domini in monte e é uma das obras exegéticas menos lidas e mais importantes do autor — menos lida porque ofuscada pelas monumentais Confissões e Cidade de Deus; mais importante porque nele se define, por vez primeira, o tom do comentário patrístico latino ao Novo Testamento.

Agostinho não está apenas explicando versículos. Está mostrando, página por página, que o Sermão da Montanha é o código de conduta do cristão — não um ideal poético reservado a santos ou místicos, mas uma exigência concreta. Os pobres de espírito, os mansos, os misericordiosos, os puros de coração — estes nomes não são figuras retóricas; são, para Agostinho, os caminhos reais pelos quais a alma humana sobe ao estado de contemplação. Cada bem-aventurança corresponde a um dom do Espírito Santo. Cada mandamento novo de Cristo (“ouvistes o que foi dito… mas eu vos digo”) é interpretado como superação, não como abolição, da lei mosaica.

O livro tem, como tudo em Agostinho, uma densidade filosófica considerável. O autor, ex-maniqueu e ex-retor da corte de Milão, escreve do interior de uma alma que acaba de atravessar, anos antes, a sua famosa conversão. Essa experiência pessoal se insinua discretamente nas análises — sobretudo no comentário ao Pai-Nosso, que é, na verdade, uma espécie de escola de oração. Quem hoje ler este comentário, junto com o texto do Sermão, descobre que a moral cristã, antes de ser ensinada como um código, precisa ser lida como um caminho de perfeição. Agostinho ensina essa leitura. Continua sendo, após mil e seiscentos anos, um dos melhores mestres possíveis.

Minhas notas