Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M72

Sonho de uma Noite de Verão

William Shakespeare
Edwin Landseer, <em>Titânia e Bottom — cena de Sonho de uma Noite de Verão</em>, 1851 — National Gallery of Victoria.
Edwin Landseer, Titânia e Bottom — cena de Sonho de uma Noite de Verão, 1851 — National Gallery of Victoria.

Atenas, véspera do casamento do duque Teseu com Hipólita, rainha das Amazonas. Quatro jovens atenienses — Hérmia, Helena, Lisandro, Demétrio — estão enredados num quarteto amoroso desequilibrado. Hérmia ama Lisandro e é amada por Demétrio; Helena ama Demétrio e é por ele desprezada. No bosque próximo à cidade, habitado por fadas, desenrola-se, na mesma noite, uma briga conjugal entre Oberon e Titânia, rei e rainha dos elfos. Oberon ordena ao diabinho Puck que pingue, nos olhos de Titânia adormecida, um filtro mágico que a fará apaixonar-se pelo primeiro ser que vir ao despertar. Paralelamente, um grupo de artesãos atenienses ensaia, no mesmo bosque, uma peça tosca — Píramo e Tisbe — para a festa do casamento ducal. Puck transforma a cabeça de um dos artesãos, Bottom, em cabeça de asno. Titânia acorda; apaixona-se pelo asno. Entre essas confusões cruzadas, os quatro jovens também recebem, por engano, doses do filtro, e durante toda a noite trocam, desapaixonam-se, reapaixonam-se. Ao amanhecer, a ordem é restaurada. Os três casais voltam a Atenas e se casam juntos. A peça, escrita por volta de 1595, termina com a bênção das fadas sobre a cidade e a casa.

Sonho de uma Noite de Verão é, aparentemente, o mais puro divertimento shakespeariano. Na verdade, é uma reflexão sofisticada sobre o próprio amor. Shakespeare mostra, sem sermão, que o amor humano é em grande parte acaso — o primeiro que vemos quando os nossos olhos são abertos pelo desejo. Muda o filtro, muda o objeto. O que torna a peça genial é que, a despeito dessa arbitrariedade do mecanismo, nenhum dos casais parece menos feliz no desfecho: cada um crê ter encontrado, após a noite confusa, a sua alma gêmea. A peça ri do amor sem desprezá-lo.

Inserida dentro dela, a peça dos artesãos — Píramo e Tisbe — é uma paródia de tragédia romântica que Shakespeare usa para rir, e também para se rir a si próprio, do gênero que ele próprio dominava. O asno Bottom, metamorfoseado e amado pela rainha das fadas, é uma das mais caridosas personagens shakespearianas: rude, vaidoso, mas tão naturalmente bom que a peça inteira se abranda em torno dele. Quem encerra Sonho de uma Noite de Verão sente o que Puck no último discurso convida a sentir: que, se o espetáculo desagradou, basta considerá-lo um sonho; e que todo sonho, afinal, tem o direito de descansar no silêncio.

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