Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M42

Seis Personagens à Procura de um Autor

Luigi Pirandello
Luigi Pirandello em 1923, dois anos após a estreia tumultuada de <em>Seis Personagens à Procura de um Autor</em>.
Luigi Pirandello em 1923, dois anos após a estreia tumultuada de Seis Personagens à Procura de um Autor.

Um diretor de teatro ensaia com a companhia uma peça qualquer — anódina, literária, convencional. São interrompidos. Entram pelo palco seis figuras vestidas de luto: um pai, uma mãe, uma jovem, um filho, dois meninos. Dizem ser personagens abandonados por um autor que começou a escrevê-los e desistiu; pedem ao diretor que leve à cena, ali mesmo, o drama que carregam dentro de si. O diretor resiste, ri, discute, ameaça expulsá-los. Os personagens insistem. O pai começa a contar. A mãe chora. A jovem se escandaliza. Os meninos, mudos, preparam-se para a catástrofe. Quando, na cena final, o pequeno afoga-se no tanque do jardim e o mais velho se mata com um tiro, já não se sabe mais se é teatro ou realidade, se a morte é real ou encenada, se alguém morreu de verdade ou se as seis figuras apenas terminaram de existir.

A peça, estreada em Roma em 1921 em meio a protestos e assobios, tornou-se imediatamente a mais discutida do teatro europeu do período. Pirandello faz algo inédito: não conta uma história; conta seis personagens contando a sua própria história no preciso instante em que a contam. Mina a certeza antiga de que no teatro há, de um lado, os personagens fictícios e, do outro, os atores reais que os interpretam. Os seis personagens reivindicam, contra os atores, serem mais reais do que eles. Porque o ator acaba com a peça; eles, os personagens, têm dentro de si um drama que se repete sempre, imutável, sem possibilidade de fim.

Poucos textos do século XX tiveram consequências tão fecundas. Brecht, Beckett, Ionesco, Genet, Pinter — todos dialogam, direta ou indiretamente, com esta peça. Mas o teor filosófico do que Pirandello está propondo é mais grave do que os efeitos cênicos que herdamos dele. É uma meditação sobre a incapacidade de se comunicar inteiramente um com o outro, sobre a maneira como cada um se fixa, para os demais, em uma máscara que os demais não ousam remover. Todo ser humano, sugere Pirandello, é, em alguma medida, um personagem em busca do autor que o teria escrito melhor. Quem reconhece em si essa condição já começou a ler a peça.

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