Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M39

Os Noivos

Alessandro Manzoni
Francesco Hayez, <em>Retrato de Alessandro Manzoni</em>, 1841 — Pinacoteca di Brera, Milão.
Francesco Hayez, Retrato de Alessandro Manzoni, 1841 — Pinacoteca di Brera, Milão.

Ducado de Milão, 1628. Renzo Tramaglino, jovem tecelão, e Lúcia Mondella, jovem camponesa, pretendem casar-se. A cerimônia é impedida por Dom Rodrigo, senhor feudal local, que, por capricho de honra, resolveu possuir Lúcia antes do casamento. A partir daí, o livro — publicado em 1827 e reescrito por Manzoni em 1840 na sua forma toscana definitiva — acompanha os dois noivos separados pela violência de um poderoso, pela covardia de um padre, pela peste, pela guerra, pelo motim do pão em Milão. Os noivos levam todo o romance para voltar a se encontrar. Quando se encontram, estão outros.

I Promessi Sposi é, para os italianos, o que A Guerra e a Paz é para os russos: o grande romance nacional em que a história coletiva e a vida de personagens humildes se trançam indissoluvelmente. Manzoni reconstrói a Lombardia do início do século XVII com a minúcia de um historiador — aliás, publicou, no mesmo período, uma longa História da Coluna Infame sobre os processos judiciais contra supostos untadores durante a peste. O romance, porém, não é tratado historiográfico. É uma catedral narrativa em que cada personagem carrega uma função moral precisa: Frei Cristóvão, o sacerdote convertido; o Inominado, o senhor feudal que se arrepende após encontrar Lúcia; o cardeal Federico Borromeu, o prelado santo; Dom Abbondio, o cura medroso que Manzoni ironiza sem perdoar. Cada um é um tipo — e cada um é, ao mesmo tempo, uma pessoa.

Poucas obras literárias têm essa combinação exata de fé católica profunda e inteligência histórica aguda. Manzoni não acredita que a Providência resolva os problemas dos homens na ponta do romance; acredita, sim, que há uma ordem maior que atravessa os desastres e que, de algum modo misterioso, transforma até o pior deles em matéria-prima para o bem. Os dois noivos, no fim, casam-se, vão viver num lugarejo distante, têm filhos, aprendem as lições do que viveram. A última lição, que Lúcia confia a Renzo, é a mais amarga e a mais libertadora do livro: as desventuras não vêm como castigo; vêm como oportunidade — e é o modo como somos nela que decide quem somos.

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