A Política
Composta por Aristóteles no Liceu de Atenas entre 335 e 323 a.C., A Política é, com a República de Platão, o texto fundador da filosofia política ocidental. Dividida em oito livros, a obra não tem a forma de diálogo, como a de Platão: é um conjunto de notas de aula, redigido com a sobriedade prática que caracteriza todos os tratados aristotélicos. O texto abre com a célebre afirmação de que “o homem é, por natureza, um animal político” — ou seja, um animal cuja perfeição só se realiza em comunidade, na polis. Sem a cidade, o ser humano é ou um ser inferior (um bárbaro, um animal) ou um ser superior (um deus). A civilização, para Aristóteles, não é opção — é realização da natureza humana.
A análise aristotélica é maduramente empírica. Diferente de Platão, que desenha a cidade ideal a partir de princípios, Aristóteles acumulou na sua escola — segundo a tradição — a descrição de cento e cinquenta e oito constituições de cidades reais, das quais só uma sobreviveu (a Constituição dos Atenienses, redescoberta num papiro no Egito em 1890). A partir desse material, classificou os regimes políticos em três bons — monarquia, aristocracia, politia — e três maus — tirania, oligarquia, democracia (no sentido pejorativo: o governo desordenado da multidão). Cada um é o desvio do outro. O bom regime, seja qual for a forma, governa em benefício de todos; o mau, em benefício apenas dos governantes.
A ênfase aristotélica, porém, não está na comparação formal dos regimes. Está na análise das causas das revoluções, da educação cívica, da relação entre ética e política, da economia doméstica. Aristóteles não é, como se diz por vezes, apenas um pensador conservador — ele é, antes, um pensador realista, que desconfia igualmente dos excessos igualitários e dos excessos aristocráticos. A sua fórmula para a estabilidade é a existência de uma classe média numerosa e educada — intuição que os séculos posteriores viriam a confirmar. Quem lê A Política descobre, com surpresa, que quase todos os problemas políticos modernos já haviam sido formulados, há mais de dois mil anos, com uma lucidez que poucos contemporâneos atingem.