As Seis Doenças do Mundo Contemporâneo
Constantin Noïka (1909–1987), filósofo romeno pouco conhecido no Brasil até que o professor Monir o introduzisse nos seus ciclos de aulas, é autor de uma obra densa que procura pensar o mundo contemporâneo a partir de uma gramática ontológica derivada simultaneamente da tradição grega (Platão, Aristóteles) e da tradição alemã (Hegel, Heidegger). O livro As Seis Doenças do Mundo Contemporâneo, publicado em 1978, é uma de suas obras de maturidade. Escrito em Romênia comunista, sob vigilância, é um diagnóstico filosófico em seis quadros do mal-estar espiritual do nosso tempo.
Cada uma das seis “doenças” é identificada por Noïka com um tipo de desequilíbrio ontológico. O catoletim, a primeira, é a aceleração vazia, o movimento sem propósito. A todetim, a segunda, é a fixação numa parte que se toma pelo todo — doença do especialista, do ideólogo. A horetim, a terceira, é a perda do limite, o transbordamento. E assim por diante, cada doença definida por uma palavra formada a partir de raízes gregas, cada doença articulada à outra num quadro sistemático. A proposta de Noïka não é moralista — é diagnóstica. Ele está tentando oferecer um instrumental conceitual pelo qual a filosofia possa ainda dizer algo preciso sobre o que adoece a cultura do seu tempo.
Noïka é autor difícil. A sua prosa é escrita para um leitor já familiar com a tradição filosófica clássica alemã. Mas o esforço recompensa. Monir fez destas Seis Doenças material de aula porque nelas se encontra algo raro: uma tentativa honesta de repensar, com os recursos dos clássicos, a condição contemporânea — sem ressentimento, sem nostalgia fácil, mas com o olhar atento de quem viveu, na própria pele, um dos piores regimes ideológicos do século. Romênia, em 1978, não era metáfora; era o laboratório real das doenças que Noïka diagnosticava.