Mercador de Veneza
Antônio, mercador cristão, toma emprestado três mil ducados do judeu Shylock para financiar o amigo Bassânio, que pretende cortejar a rica herdeira Pórcia. Como garantia, Antônio assina um contrato cuja cláusula penal é grotesca: se não quitar a dívida no prazo, pagará com uma libra da própria carne, cortada de onde o credor escolher. Ninguém leva a cláusula a sério — até que as embarcações de Antônio naufragam, a dívida vence e Shylock comparece ao tribunal com a faca afiada, exigindo a letra da lei.
Escrita por volta de 1596, a peça é uma das mais desconfortáveis de Shakespeare, e precisamente por isso uma das mais importantes. Shylock não é o vilão caricato do antissemitismo medieval: é uma personagem inteira, humilhada em cada esquina pelos cristãos que agora pedem sua clemência. O seu “Não tem um judeu olhos? Não tem um judeu mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afetos, paixões?” é a mais dura réplica que a literatura europeia oferecera, até então, aos que recusavam humanidade ao outro. O tribunal o derrota, Pórcia o desarma com um tecnicismo jurídico, a cidade o despoja. A peça termina em festa — mas o espectador atento sabe que a festa é paga com o silenciamento de uma voz.
Shakespeare faz aqui o que os grandes autores sempre fazem: constrange as certezas do leitor. Quem lê o Mercador como comédia comemorativa não o leu. Quem lê como panfleto antijudaico também não. É uma peça sobre a misericórdia que a lei pode conceder mas não exigir, sobre o amor que compra e o amor que liberta, sobre a dificuldade, muito cristã, de perdoar aquele a quem se negou por séculos o direito de existir em paz.