Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M04

Orestéia/As Eumênides

Ésquilo
William-Adolphe Bouguereau, <em>Orestes Perseguido pelas Fúrias</em>, 1862 — Chrysler Museum of Art.
William-Adolphe Bouguereau, Orestes Perseguido pelas Fúrias, 1862 — Chrysler Museum of Art.

A Orestéia, encenada em 458 a.C., poucos meses antes da morte de Ésquilo, é a única trilogia trágica grega que chegou inteira até nós. São três peças — Agamêmnon, As Coéforas, As Eumênides — que relatam a cadeia sangrenta dos Atridas: Agamêmnon sacrifica a filha Ifigênia para obter ventos favoráveis rumo a Troia; volta da guerra dez anos depois; é assassinado pela esposa, Clitemnestra, em vingança por aquela filha; é vingado pelo filho, Orestes, que mata a mãe; e é por esse matricídio — e só por ele — que o círculo da vingança, pela primeira vez, se interrompe.

As Eumênides, última peça, põe Orestes em julgamento. As Erínias — divindades arcaicas, irracionais, subterrâneas — perseguem-no pelo sangue materno. Apolo o protege. Atena, deusa da cidade, recusa-se a decidir sozinha: convoca doze cidadãos atenienses e institui o primeiro tribunal humano da literatura ocidental. Os votos empatam. Atena desempata a favor de Orestes. As Erínias, vencidas, ameaçam destruir Atenas. A deusa não as expulsa: persuade-as. Oferece-lhes um lugar sagrado sob a Acrópole e um novo nome, Eumênides — as Benevolentes.

Ésquilo não está inventando mitologia: está fundando a política. A Orestéia encena a passagem da vingança privada, que nunca tem fim, para a justiça pública, que precisa ter limite. Não elimina as forças arcaicas do sangue — as integra, transforma-as em guardiãs subterrâneas da lei. Nenhum pensador político posterior, de Aristóteles a Hegel, tratou da justiça sem deixar rastros desta trilogia. É o nascimento, no palco, da ideia de que uma cidade se diferencia da selva pelo que ela faz com a vingança.

Minhas notas