Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M01

Ilíada

Homero
Busto helenístico de Homero, cópia romana do séc. II a.C. — British Museum.
Busto helenístico de Homero, cópia romana do séc. II a.C. — British Museum.

A Ilíada não narra a guerra de Troia. Narra cinquenta e um dias do décimo ano de um cerco que durou uma década inteira — e, nesse recorte estreito, funda o modo como o Ocidente aprenderia, dali em diante, a falar da guerra, da honra e do sofrimento. Composto no século VIII a.C., o poema se abre com a palavra mênin — cólera — e se amarra a ela do primeiro ao último verso.

É a cólera de Aquiles, filho da deusa Tétis, o melhor dos aqueus, ofendido pelo rei Agamêmnon e retirado da batalha. Em torno desse gesto aparentemente mesquinho — um guerreiro que se recusa a guerrear — Homero edifica a primeira grande reflexão sobre os limites entre honra e soberba, entre coragem e insensatez, entre heroísmo e egoísmo. Os deuses descem ao campo, os homens sangram e Heitor, o mais nobre de todos, tomba aos pés das muralhas da cidade que ele ainda não sabe condenada.

Ler Homero não é fazer arqueologia nem cultivar erudição decorativa. É descobrir que os grandes temas da tradição ocidental — o amigo morto, o pai enlutado, a inutilidade da ira, a dignidade do vencido — já tinham, há quase três mil anos, a forma e o peso definitivos que têm hoje. Quem ignora a Ilíada não perde apenas um livro: perde a chave de quase tudo o que veio depois.

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