Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
GC-60

Sobre a natureza do ser humano

Gustavo Corção
Gustavo Corção (1896–1978), engenheiro do Departamento de Correios e Telégrafos, escritor e cronista católico.
Gustavo Corção (1896–1978), engenheiro do Departamento de Correios e Telégrafos, escritor e cronista católico.

A pergunta — o que é o ser humano — atravessa toda a tradição ocidental, de Sócrates a Heidegger. Cada época responde de uma forma. Cada resposta dá origem a uma civilização. O homem como animal racional dos gregos sustentou a pólis; o homem como imagem de Deus dos cristãos sustentou a Cristandade; o homem como sujeito autônomo dos modernos sustentou as repúblicas iluministas. O problema é que cada definição, ao retirar elementos das anteriores, deixa um déficit que cobra preço. Corção, neste texto, se recusa a essa amputação progressiva. Quer recuperar a antropologia integral — clássica, cristã e científica — sem abrir mão de nenhuma das suas dimensões.

O ser humano, para Corção, não é só o animal racional, embora seja também isso. Não é só a imagem de Deus, embora seja também isso. Não é só o sujeito autônomo da modernidade, embora a modernidade tenha razão ao reconhecer-lhe a liberdade. É a articulação dessas três camadas — biológica, espiritual e moral — que nenhuma redução parcial consegue captar. O reducionismo materialista do séc. XX, que tentou explicar tudo por neurônios, hormônios e estímulos, é tão estreito quanto o espiritualismo angelical que finge esquecer que o homem tem corpo. A verdade está em compreender que o homem é simultaneamente as três coisas, e que a sua dignidade nasce dessa articulação, não da escolha de uma das partes.

Esse texto é a síntese antropológica de Corção — provavelmente extraído ou inspirado em A Descoberta do Outro, que é o seu livro mais sistemático sobre o assunto. Para quem ouve, fica a impressão clara de que estamos diante não de um sermão, mas de um exercício de pensamento — feito por quem sabe matemática suficiente para não se contentar com vagueza, e teologia suficiente para não se contentar com ciência mecânica.

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